O DRAMA DA DOUTRINA DA TRINDADE.PARTE 1


Em seu livro o futuro de uma ilusão, Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, disse que Deus é uma invenção do homem, e ele faz várias observações tentando provar seu pronunciamento. Em resumo, o Homem cria a ideia de Deus motivado pelo medo. O medo da natureza, das imprevisibilidades das manifestações físicas, nos deixa atordoados e assim criamos um ser que nos proteja do mal manifesto na esfera física da existência. 
Freud afirma ainda que outra razão para inventarmos Deus é o medo que temos dos relacionamentos. Somos seres relacionáveis, mas temos medo de nos entregarmos ao outro, pelo fato de termos sofrido diversas decepções sentimentais por aqueles que diziam que nos amava e por aqueles a quem nós confiávamos, então, criamos a ideia de alguém que está conosco e nos entende sejam quais forem as circunstâncias a qual estamos passando, e que nunca irá trair nossa confiança. Freud também atribui essa suposta invenção do Divino pelo humano ao medo que o humano tem da morte. A transitoriedade da vida e a inevitabilidade da morte, nos faz criar a ideia de um Deus que preparou o céu para levar aqueles que são obedientes a ele a um lugar onde não a dor, pranto, lamento, sofrimento e morte.
Freud em parte estava certo. Uma boa parte da humanidade crê em deuses criados para seus próprios gostos e que satisfaçam suas necessidades particulares. Mas ele está errado em dizer que a ideia do Verdadeiro Deus é uma invenção humana. As pessoas não querem inventar o Deus único, em vez disso elas desejam negar a sua existência.
Como cristãos reconhecemos que Deus existe, mas será que conhecemos o Deus que existe? Sabemos como ele é? Dizemos que amamos a Deus, mas será que temos uma compreensão bíblica desse Deus a qual dizemos que amamos? Na sociedade brasileira mais de 90% das pessoas dizem que acreditam em Deus, Mas quando questionamos a essas pessoas sobre a natureza do Deus em que acreditam, torna-se evidente que várias de suas concepções sobre Deus são incompatíveis com as descrições bíblica sobre Ele. Deus se tornou na mente da grande maioria como algo de foro íntimo. A falta de estudo bíblico tem levado muitos a criarem falsos deuses baseados em suas falsas percepções da divindade.

                                                                     

TRINDADE, O ABSURDO DA REVELAÇÃO



Pare um pouco. Não se apresse. Olhe para os seus pés. O terreno onde você está pisando é escorregadio, perigoso, pode lhe aproximar de Deus ou pode lhe afastar Dele. É uma das doutrinas mais complicada da bíblia. Estudamos no artigo anterior sobre o nosso único Deus, e agora iremos estudar sobre a diversidade desse Deus. Um Deus, três pessoas; Pai, Filho e Espirito Santo. Três pessoas um único Deus.
Não três deuses, mas três pessoas que subsiste em um único Deus. Entendeu?  Mas antes de entrarmos nessa problemática, vale apena transcrever o que Santo Agostinho falou para todo aquele que deseja mergulhar no estudo da trindade. 


Todo aquele que ler essas explanações, quando tiver certeza do que afirmo, caminhe lado a lado comigo; quando duvidar como eu, investigue comigo; se o erro for meu, chame minha atenção [...] principalmente no tocante à unidade da Trindade, que é o Pai, o Filho e o Espirito Santo. Por certo nenhuma outra questão existe que ofereça mais risco de erros, mais trabalho na investigação e mais fruto na descoberta.
         Agostinho, A Trindade, 1.3.5




Agostinho percebeu a dificílima tarefa de compreender a trindade, mesmo assim ele foi o teólogo ocidental que mais falou sobre a Trindade. A incompreensão dessa doutrina não nos isenta o privilégio de estudá-la.
Chamo a Doutrina da Trindade de absurdo, não no sentido pejorativo que essa palavra significa para nós, mas em um sentido carregado de transcendênciabilidade que ultrapassa qualquer tentativa humana de defini-la. Não dá para explicar em sua totalidade o mistério da Trindade. Nós não conseguimos explicar o universo, vamos conseguir explicar o seu Criador! Nem os cientistas conseguem explicá-lo, pois qualquer tentativa de sistematizá-lo vai sempre chegar a extrapolação do perceptível. A origem da vida e do universo está além da empiricidade laboratorial. É preciso fé para crer no incrível e aceitar o impossível. 
Mas, mesmo não tendo uma compreensão total sobre o mistério trinitário, vamos analisar apenas algumas evidências dessa maravilhosa doutrina. Pois a Doutrina da Trindade é apresentada nas escrituras não em uma definição formulada, mas apenas em alusões fragmentárias. Millard Erickson diz sobre a Trindade: 


Tente explica-la, e vai perder sua mente; tente negá-la, e vai perder sua alma”.


Nos desdobramentos que se segue, irei apenas mostrar algumas evidências bíblicas, tanto no AT, como no NT a respeito dessa doutrina. Ou em outras palavras; o que está implícito no AT e o que está explícito no NT. Irei também fazer uma pequena introdução sobre algumas interpretações e formulações equivocadas a respeito da Trindade no decorrer da história do Cristianismo.


A DOUTRINA DA TRINDADE NO ANTIGO TESTAMENTO



Jamais conseguiríamos descobrir essa doutrina baseado unicamente em nossa racionalidade humana, pois tudo que sabemos sobre essa doutrina é consequência da auto revelação divina a nós. Como disse Berkhof:

 
É uma doutrina que não teríamos conhecido, nem teríamos sido capazes de sustentar com algum grau de confiança, somente com base na experiência, e que foi trazida ao nosso conhecimento unicamente pela auto revelação especial de Deus.



Apesar de não encontrarmos explicitamente a doutrina da Trindade no AT, ela está implicitamente lá. (Gn. 1.26). Deus disse: “Façamos o homem à nossa imagem, como nossa semelhança”, Apesar de muitos teólogos verem aqui um plural majestático, é mais coerente pelo contexto em si, acreditar que o Pai nesse momento, de modo deliberativo conversa com as outras pessoas da Trindade.  Is. 59.20-21. “O redentor virá a Jerusalém para resgatar em Israel aqueles que se afastaram de seus pecados, diz o Senhor. E esta é minha aliança com eles, diz o Senhor. Meu Espirito não os deixará, nem estas palavras que lhes dei. Estarão em seus lábios, nos lábios de seus filhos e nos lábios de seus descendentes, para sempre. Eu, o Senhor, falei!” Esses versículos são palavras pronunciadas diretamente de Deus, o Pai, aqui chamado de Senhor, estabelecendo um pacto com o seu povo. Como parte desse pacto o Espírito estaria sobre o mediador do pacto, o Salvador Jesus Cristo, que é o redentor que vem de Sião.
Em passagens como Jó 35,10; Salmos 149.2; Eclesiastes 12.1; e Isaías 54.5, a tradução em nossa língua traz “Criador” no singular, mas o texto hebraico traz o termo no plural: “Criadores”.  O mundo foi feito por um só Deus, mas foi feito pelo Pai, pelo Filho e pelo Espírito. A pluralidade no nome de Deus não indica que existe três deuses, indica a pluralidade de pessoas que existe num único Deus, se considerarmos a questão à luz da revelação neotestamentária. Existe diversos outros versículos como este que, não contém a plena revelação da existência trinitária de Deus, mas contém várias indicações dela.


A DOUTRINA DA TRINDADE NO NOVO TESTAMENTO.



O NT. Traz explicitamente uma revelação mais clara das distinções da Divindade.
Existe a clara revelação de Deus enviando seu Filho ao Mundo, Jo 3.16; Gl 4.4; Hb 1.6; 1Jo 4.9; e do Pai e o Filho enviando o Espírito, Jo 14.26; 15.26; 16.17; Gl 4.6.
Vemos o Pai dirigindo-se ao filho, Mc 1.11; Lc 3.22; o Filho comunicando-se com o Pai, Mt 11.25,26; 26.39; Jo 11.41; 12.27; do Espirito Santo orando a Deus nos corações dos crentes, Rm 8.26. etc. A lista é enorme. No batismo do Filho, o Pai fala ouvindo-se do céu a sua voz, e o Espirito Santo desce na forma de pomba. Mt
3.16,17. Na grande comissão Jesus menciona as três pessoas: “... batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”, Mt 28.19.
Jesus se relacionava com o Pai como seu Deus. Ele orou ao Pai e ensinou os discípulos a fazer o mesmo, mostrando que o pai é uma pessoa (Mt 6.9-13; Jo 17). Fica explicitamente comprovado que ele não estava falando consigo mesmo, ou como dizem alguns, o lado humano estava falando com o lado Divino. Jesus não é o Pai. O Pai não é o Filho. O outro consolador que ele prometeu enviar após sua ascensão aos céus não foi um modo diferente de apresentação dele próprio, mas foi a Pessoa do Espirito Santo, uma pessoa distinta dele e do Pai.
Se você estudar o NT de carreirinha, perceberá nitidamente as pessoas da divindade sendo apresentadas. O que você nunca perceberá é a doutrina da trindade como a conhecemos hoje. Pois a teologia sistemática no que diz respeito a Trindade, foi uma construção teológica ocorrida na história da igreja cristã. O pastor Ezequias Soares, diz que: “a Bíblia revela a triunidade de Deus sem necessitar de definições teológicas, e o destinatário imediato de cada texto bíblico compreendia com clareza mediana a unidade na Trindade e a Trindade na unidade. Apesar de respeitar a definição do Pastor, discordo de sua afirmativa. Pois no que ele escreveu, tem-se a impressão de que os cristãos do NT foram os únicos a compreenderem essa doutrina, e que nos Próximos Séculos da era cristão ninguém mais compreendeu com a clareza que esses irmãos compreenderam. Os irmãos do primeiro século, diferente de nós, não sentiram a necessidade de uma formulação da doutrina da Trindade como os padres da igreja em diante sentiram.
Os primeiros cristãos entenderam e aceitaram a Triunidade Divina, como revelação, pela fé. Nos séculos que se seguiram, devido as mais diversas circunstancias, os irmãos perceberam a necessidade de defenderem a sua fé diante das várias heresias que surgiram por interpretações equivocadas das escrituras a respeito do Pai, do Filho e do Espirito Santo. E sobre essas problemáticas iremos comentar no próximo artigo.


Por Ezequiel Soares





Postar um comentário

0 Comentários