O DRAMA DA DOUTRINA DA TRINDADE(PARTE 2)


                                      
AS CONTROVÉRSIAS DA DOUTRINA DA TRINDADE NA HISTÓRIA DA CRISTANDADE.
                                      

         É fato que devemos aceitar essa doutrina como as escrituras nos apresentam, e precisamente da maneira como ela nos ensina. Como dizia Martinho Lutero:


Deveríamos, como criancinhas, balbuciar aquilo que as escrituras nos ensinam: que o Pai é verdadeiramente Deus, que o Filho é verdadeiramente Deus, que o Espírito Santo é verdadeiramente Deus, e, no entanto, nisto não há três deuses, ou três seres, no sentido em que há três homens, três anjos, ou três janelas”.


Mas, durante a história do cristianismo o que vemos na maioria das vezes são formulações da doutrina da Trindade tendo como principal fonte de apoio não a Bíblia Sagrada, mas, ao invés disso, a filosofia Grega. Por exemplo; durante os Séculos II e III, a influência do pensamento estoico e platônico fez com que alguns negassem a Divindade plena de Cristo e tentassem reduzi-los a dimensões que consideravam comensuráveis com um Mundo de tempo e espaço. A construção teológica da maioria das doutrinas cristãs que temos hoje foi desenvolvida, tendo como guisa de partida, pressupostos lógico-filosóficos. Por isso, torna-se fundamental para uma melhor compreensão teológicas de nossas doutrinas, um entendimento básico de alguns ramos filosóficos. 
Devemos estar conscientes dos erros cometidos no passado, todos são  resultado de tentativas de simplificar a doutrina da Trindade e torná-lo completamente compreensível, eliminando todo o seu mistério. Isso nunca vai ser alcançado. No entanto, não é correto dizer que não podemos entender nada sobre a doutrina da Trindade. Certamente podemos entender e saber que Deus é três pessoas, e que cada pessoa é plenamente Deus, e que há um só Deus. Sabemos estas coisas porque a Bíblia ensina.




A UNIDADE DE DEUS


         Desde o princípio até ao fim as Escrituras afirmam a unidade absoluta de Deus. “No princípio, criou Deus [não deuses] os céus e a terra” (Gn. 1.1). “Ouve, Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Dt. 6.4). “Não terás outros deuses diante de mim” (Ex20. 3). “Eu sou o primeiro e eu sou o último, fora de mim não há Deus” (Is 44.6). “Eu sou o Senhor, e não há outro” (Is. 45.18). “O primeiro de todos os mandamentos é: Ouve Israel, o Senhor, nosso Deus, é o único Senhor” (Mc 12.29). “[...] sabemos que o ídolo nada é no mundo e que não há outro Deus, senão um só” (1 Co 8.4). “Porque há um só e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos, e em todos” (Ef 4.6). “Porque há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens,
Jesus Cristo, homem” (1 Tm 2.5). 
Além das provas bíblicas a respeito da unicidade de Deus, os pais da igreja asseveraram unanimemente que o nosso Deus é único. “A unidade absoluta de Deus nunca foi desafiada por qualquer Pai ortodoxo da Igreja. “Mesmo entre os primeiros Pais, há um coro unânime de louvor ao único Deus e a sua unidade”.[1]
Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano, Hipólito, Orígenes. Todos esses homens registraram na história uma apologia a Unicidade de Deus. Mas dizer que Deus é Uno não entra em contradição ao dizer que Ele é Trino. Deus é um título. E, esse título é digno do Pai, do Filho e do Espírito Santo.





O Triteísmo


O triteísmo é a crença em que há três deuses ou três seres separados na divindade. Poucos ou ninguém defendeu este ponto de vista, embora muitos sem perceber caem nela verbalmente pela linguagem descuidada sobre a divindade. Ao ressaltar corretamente que as três pessoas são distintas, é fácil não perceber estar enunciando o triteísmo, que postula erroneamente haver três seres separados.


       Arianismo


Ário (c. 250-336), fundador desta heresia, negou que Jesus seja completamente Deus, dando-lhe um estado criado abaixo de Deus. O arianismo foi combatido por Atanásio e condenado como crença herética no Concilio de Nicéia (325 d.C.). Segundo Ário, Jesus foi criado por Deus. Essa heresia ainda é propagada hoje pelas testemunhas de Jeová.


Docetismo

Derivada da palavra grega dokeo, “eu pareço”, o docetismo afirma a deidade de Jesus, mas lhe nega a humanidade, afirmando que era só uma humanidade aparente e não real. Elementos deste erro já tinham surgido nos dias do Novo Testamento (1 Jo 4.1-3; 2Joao 7; Cl 2.8,9). Em certas formas, sustenta que Jesus escapou da infâmia da morte por crucificação, quando Judas Iscariotes ou Simão cirineu trocaram de lugar com Ele na cruz. Os muçulmanos aceitam uma forma deste erro (ver Sura 4.187). Entre os proponentes deste erro estavam Cerinto (c.
100 d.C.) e Serapiao, bispo de Antioquia (190-203).



Nestorianísmo

E duvidoso que Nestório (m. c. 451 d.C.) tenha defendido a visão que leva seu nome, embora alguns dos seus seguidores recebam esse crédito. Esta perspectiva postulava não apenas duas naturezas em Jesus (que é ortodoxo), mas também duas pessoas (que não é). Supostamente, se há uma pessoa humana e uma pessoa divina em Jesus, então foi só a pessoa humana que morreu na cruz; por conseguinte, o seu sacrifício pelos nossos pecados não teria eficácia divina. A verdade é que só se uma e a mesma pessoa, que era Deus e homem, morresse pelos nossos pecados poderia ser verdadeiramente o mediador entre Deus e o homem (1 Tm 2.5).
É contra o nestorianismo que os credos falam quando insistem em uma união hipostática das duas naturezas em uma pessoa. Enquanto que “hipóstase” significa, literalmente, “substancia”, tem também o significado de “realidade individual”, e do século IV em diante veio a significar “pessoa”.



Monofisismo

O monofisismo também é chamado de eutiquianísmo, segundo o nome de Eutiquio (c. 375-454), o seu suposto fundador. O monofisismo confunde as duas naturezas de Jesus, de forma que a natureza divina e humana se mistura. Além de ser uma heresia, é uma contradição, visto que defende que há uma mistura de infinito finito e um criado incriado nas duas naturezas de Jesus.



Patripacianismo

Calma, não é língua estranha! Patripassianismo quer dizer, literalmente, o
“Pai sofreu”. Surgiu no princípio do século III na forma de monarquismo e sustentava que Deus Pai sofreu na cruz como também Jesus. Logo, a natureza divina possuída por Jesus não sofreu ou morreu: Deus é impassível e, por conseguinte, incapaz de ter sofrimento. Só o Filho se encarnou em uma natureza humana. Portanto, só o Filho, não o Pai ou o Espírito, sofreu na cruz.



Apolinarísmo

De acordo com o seu líder, Apolinário (c. 310-c. 390), esta seita diminuiu a humanidade de Jesus. Quer dizer, ainda que afirmasse a plena deidade, eles negavam a plena humanidade, defendendo que Jesus não tinha espírito humano (só um corpo e uma alma). Eles sustentavam que o Logos divino substituiu o espírito humano em Jesus. O apolinarismo foi condenado pelos Sínodos em Roma (374380) e pelo Concilio de Constantinopla (381).



Subordinação

Esta heresia foi defendida por Justino Mártir (c. 100-c. 165) e Orígenes (c. 185-c. 254) e condenada pelo Concilio de Constantinopla (381). Afirma que o Filho é subordinado em natureza ao Pai. Não confundamos subordinação com a crença ortodoxa de que o Filho (Cristo) é funcionalmente subordinado (ou seja, sujeito) ao Pai, embora seja essencialmente igual com Ele.



Monarquismo

Esta heresia nao-trinitária dos séculos II e III acentuava a unidade (monarquia) de Deus a rejeição da deidade de Jesus. Supostamente, Jesus era só um poder ou influência de Deus. Havia dois grupos principais de monarquistas: os modalistas e adocionistas. Os modalistas foram representados por Noecio, Praxeas
e Sabelio. Os principais adocionistas foram Teodoto e Artemom e, talvez, Paulo de Samosata.



Adocionísmo

O adocionismo (ou adocianismo) se fundamentou no monarquismo do século II e III, mas se desenvolveu no século VIII. De acordo com esta visão, Jesus era apenas um homem, mas por causa dos seus poderes divinos Ele foi adotado por Deus. Dizem que isso ocorreu quando Deus declarou dos céus: “Este é o meu Filho amado” (Mt 3.17).




Binitarísmo  
 
De acordo com o binitarismo, só há duas pessoas na divindade. Ainda que poucos ou nenhum dos primeiros Pais postulasse o binitarismo explicitamente, alguns, implicitamente, caíram nesse erro, sem perceber, ao negarem a deidade do Filho. Nos dias de hoje, alguns proponentes desta visão negam a personalidade do Espírito Santo, desta forma deixando só duas Pessoas na divindade. A Igreja de Jesus Cristo Reorganizada
(grupo - irma dos mórmons) e a antiga Igreja Mundial de Deus, orientada por Herbert W.Armstrong, adotaram este ponto de vista.



Podemos resumir as principais visões concernentes à relação entre a natureza e a Pessoa (ou Pessoas) da divindade do seguinte modo:


Pessoas 
Natureza
Trinitarianismo
Três 
Um
Triteísmo
Três
Três
Politeísmo
Muitos
Muitos
Modalísmo
Um
Um
Binitarísmo
Dois
Um

Desde os primeiros pais da igreja, até o presente momento histórico; existiu e existem vários ramos teológicos que defenderam e defendem a Trindade, e outros que negaram e ainda negam essa doutrina.




A TRINDADE NA PRÁTICA DA VIDA CRISTÃ

É melhor pararmos por aqui. O assunto sobre a Trindade é extenso demais para resumi-lo em algumas linhas. E quanto maIs falamos dos diversos conceitos formulados ao longo da História Cristã mais dúvidas surgem em nossas mentes. 
A grande pergunta a se fazer é: Que diferença a Doutrina da Trindade vai fazer em nossa peregrinação espiritual? Como Cristão eu preciso saber de todas essas problemáticas relacionadas a essa doutrina?
É preciso cautela ao responder essas perguntas. Por que senão, podemos cometer o erro da tradição católica defendida em vários concílios, onde afirmava taxativamente que; quem não acreditasse na doutrina da Trindade por eles formulada, eram considerados anátemas. Dignos do inferno, sem direito a salvação. Por outro lado, não podemos ser como muitos anti-doutrina, que dizem que o importante na vida cristã é seu relacionamento com Deus, tornando-se desnecessária qualquer compreensão teológica bíblica a respeito de qualquer doutrina. 
O primeiro ponto de vista tem deixado muitos cristãos entupidos de teologias e vazios de Deus. Estudam tanto os mistérios Divinos, mas nunca foram tocados pelo Deus que é mistério. A ortodoxia encheu suas mentes, mas a falta de Deus esvaziou seus corações. 
O segundo grupo geralmente é o que predomina em nossas igrejas. São cristãs que enfatizam tanto uma vida de experiência com Deus, que interpretam a Bíblia (quando lêem), Deus, a vida, e tudo que existe baseado unicamente em sua percepção subjetiva. Deus, para a maioria dos evangélicos não é aquele que está revelado na bíblia sagrada, mas o que é sentido. Como diria Freud, é um deus fabricado e manipulado de acordo com as minhas necessidades. 
Sabemos que jamais iremos ter uma compreensão exaustiva de Deus. Nem mesmo quando chegarmos ao céu. Pois mesmo no céu, continuaremos sendo criaturas limitadas diante de um criador Eterno e ilimitado. A diferença é que o pecado que ofusca a gloria de Deus em nossa vida não terá mais força, não terá mais domínio sobre nós. A gloria de Deus será nosso deleite eterno. Nunca iremos compreendê-lo por completo. Nunca iremos desvendar o mistério de sua essência. E graças a Deus por isso.


Para concluir citarei uma oração a trindade Feita por um puritano.


“TRÊS EM UM, UM EM TRÊS, DEUS DA MINHA SALVAÇÃO,
Pai celestial, Filho bendito, Espírito eternal,
Eu te adoro como único Ser, única Essência,
Único Deus em três Pessoas distintas,
Por trazeres pecadores ao teu conhecimento e ao teu reino.
Oh Pai, tu me amaste e enviaste Jesus para me redimir;
Oh Jesus, tu me amaste e assumiste a minha natureza,
Derramaste teu sangue para lavar meus pecados,
Operaste justiça para cobrir a minha indignidade;
Oh Santo Espírito, tu me amaste e entraste em meu coração,
Lá implantaste a vida eterna,
Revelaste-me as glórias de Jesus.
Três Pessoas e um só Deus bendigo-te e louvo-te,
Por amor tão imerecido, tão indizível, tão maravilhoso,
Tão poderoso para salvar os perdidos e elevá-los à gloria.
Oh Pai, rendo-te graças, pois em plenitude de graça
Tu me deste o Jesus,
Para ser dele ovelha, jóia, porção;
Oh Jesus, rendo-te graças, pois em plenitude de graça
Tu me aceitaste, me esposaste, prendeste-me a ti;
Oh Espírito Santo, rendo-te graças, pois em plenitude de graça
Apresentaste-me Jesus por minha salvação,
Implantaste a fé dentro em mim, Subjugaste meu coração contumaz,
Fizeste-me um com Ele para sempre.
Oh Pai, tu estás entronizado para ouvir as minhas orações,
Oh Jesus, tuas mãos estão estendidas para receber as minhas petições,
Oh Espírito Santo, tu estás pronto para socorrer-me em minhas fraquezas,
Para mostrar-me a minha necessidade,
Me suprires de palavras, orares dentro em mim,
Para fortalecer-me de sorte que eu não desanime de suplicar.
Oh Trinitário Deus que comandas o universo,
Tu me ordenaste pedir por essas coisas
Concernentes ao teu reino e à minha alma.
Faz-me viver e orar como alguém batizado em teu triplo Nome”.[2]





Referências bibliográficas


GASLER, Norman. Teologia Sistemática. Vol. 01 cpad.
FERREIRA, Franklin & MYAAT,Allen. Teologia Sistemática. Vida Nova.
Beeke, R. Beeke & Jones, Mark. Teologia Puritana, Vida Nova, 2016 Gonzáles, L. Justo. História ilustrada do Cristianísmo. Volume 1. Vida Nova.
Strong, Augustus Hopkins. Teologia Sistemática, Volume 1, Hagnos 2015.
SOARES, Ezequias. A razão da nossa Fé. CPAD.
.          J.P. Moreland& William Lane Craig.  Filosofia e cosmovisão cristã. Vida Nova.

BERKOFF, Louis. Teologia Sistemática. Cultura Cristã.
               BOETTNER, Loraine.  A Trindade. PDF. Monergismo.com
               MACARTHUR. John Junior. Deus Face a face com sua Majestade.
Site. www.Monergismo.com.br












[1] Norman Gaisler. Teologia Sistemática. Vol. 1. P. 785
[2] Oração a Trindade. Monergismo.com 

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